Creditos foto: Mia Massi (Kaio Queiroz), Melina e Carrie (The Drag Series)

Da Grécia Antiga até Aquaria, conheça a trajetória da profissão que ganha cada vez mais espaço

Você com certeza já assistiu RuPaul’sDragRace e relembra das queens memoráveis que passaram pelo reality, como Aquaria, Kim Chi e Bianca Del Rio, mas relatos de encenações e formas teatrais onde homens se apropriaram dos papéis de mulheres se dão desde antes da Grécia antiga.

O conceito se consolidou mesmo com o dramaturgo Téspis, responsável pelos primeiros registros históricos em que os mesmos atores que sai de cena como um homem, entrava para representar um papel feminino A prática também foi vista em outros lugares do nosso mundo: no teatro Topeng (Indonésia), Kathakali (Índia), Kyogen, Kabuki, e Nô (Japão), também há relatos de atores — que até chegaram a ficarem famosos nacionalmente por suas interpretações femininas — que passavam cerca de 10 a 12 anos estudando para poder entrar em cena como Onnagata (女形), nome dado aos atores transformistas no teatro Kyogen e Kabuki.

A artimanha não era exclusiva do oriente. No ocidente, nossa grande América, o teatro Elizabetano também proibiu a função de atriz em suas companhias de teatro, portanto o resgate a atores travestidos foi feito. Isso por volta do século XVI! Há especulações que o termo DRAG (dressedlike a girl) foi utilizado por Shakespeare em seus manuscritos quando se referia aos atores travestidos — a afirmação não pode ser comprovada pois nenhum documento sobreviveu àquela época. Já outras fontes afirmam vir do verbo inglês todrag (arrastar) que se refere às longas vestimentas usadas pelos performers. Olha a dimensão!

Multiformes

Os relatos diminuem devido alguns fatores importantes na história da arte. Um deles é a permissão de mulheres atuarem em companhias teatrais na Inglaterra, no ressurgimento do teatro após o banimento da época. Assim, a drag foi deixada de lado por um tempo e vivia à margem em bares e tabernas. Já no século XVIII, a dragqueen perde ainda mais o poder com o fácil acesso à leitura, à novelas e mudança de pensamento da sociedade, quando acaba se tornando apenas uma figura satírica.

Um novo movimento começa. Os transformistas — termo utilizado para os artistas que se vestiam de forma a assumir outro gênero — londrinos começaram a frequentar espaços vestidos com roupas da moda, locais que foram chamados de Molly Houses, nos quais são relatados muitas relações homossexuais. A partir de então, é feita a associação da arte com a sexualidade. Na Itália, a prática é vista com frequência dentro de coros religiosos, em que mulheres não podiam ser solistas nas igrejas e eram substituídas por homens castrados durante a infância para os papéis femininos das óperas e peças.

Já no século XIX a drag volta aos palcos com suas performances de forma mais cômica e irônica, mostrando os costumes mais estereotipados do feminino da época. No século posterior começa a manifestação da drag dentro de espaços chamados Music Hall, onde era permitido cantar e apresentar comédias no estilo stand up, e nesse ambiente ficou presente durante os primeiros 50 a 60 anos do século. Porém, quando o feminismo se mostrou mais formado e começou a ganhar poder, as drags tiveram que ressignificar a sua arte, se alinhando a luta LGBT.

Com o surgimento da televisão e da pop art, o aparecimento das divas como Marilyn Moroe, Diana Ross e Audrey Hepburn, influenciou as drags a se apropriarem da estética de glamour dessas artistas em suas aparições. As queens dessa época já estavam tão intrinsecamente ligadas à comunidade LGBTT que começaram a apropriar, cada vez mais, a identidade cultural e o próprio “ser” do LGBTT à cultura delas.

Nos anos 70 as drags começam a ter mais aparições, entre filmes e rádio. Com o patamar que alcançou como disrupção e representatividade do público gay e dos artistas, a sua arte virou uma forma de política e passou a ser vista como líderes na luta aos direitos gays. Porém, uma nova barreira surge no começo dos anos 80: com o avanço da AIDS, a arte drag é, mais uma vez, retida da esfera pública e se confina apenas em bares LGBTT e undergrounds.

Representatividade

Mais uma vez, as drags voltam a ganhar força juntamente com o movimento Club Kid nos Estados Unidos, nos fins dos anos 80, através de artistas que reúnem a cultura transformista tanto em suas apresentações quanto em seu próprio jeito de ser. Exemplos disso são grandes nomes como: RuPaul, Lady Bunny e Elke Maravilha. Surgem, então, os bailes, as casas de “famílias queens” e o Vogue, estilo de dança muito importante na militância LGBTT e negros.

Atualmente, a cultura drag vem crescendo com o incentivo de realitys show como RuPaul’sDragRace, já citado aqui, onde queens mostram seus diversos talentos — desde costura a performances de dança e canto—, Academias de Drags, apresentado pela SilvettyMontilla, e o mais recente sendo produzido em Brasília, Pop UpDragRace .

No Distrito Federal temos mais de sessenta Queens que se apresentam e entretém a noite, entre elas algumas de influência nacional como Carrie Myers, Naomi Leakes, Xantara Thompson, Madison Parker e Melina Impéria. Entretanto, ainda é costume encontrar a arte apenas nas casas noturnas e ambientes exclusivos, restringindo o contato da drag às pessoas que frequentam esses lugares, além de limitar o contato do público com o artista. Apesar disso, temos visto o crescimento de atuação drags em outros ambientes, como animação de festas particulares, casamentos e chás de panela, mas ainda assim a arte se encontra segregada a uma pequena parcela da população.

Mia Massi

Drag, dj, designer e figurinista — tudo isso só é possível por conta da sua mente, que não para de criar um segundo. Já viajou por alguns estados como: São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Brasília, mas está disposta a fazer qualquer tipo de viagem.

Revisão:Talita de Souza

Creditos foto: Mia Massi (Kaio Queiroz), Melina e Carrie (The Drag Series)