Documentário Divinas Divas

As manifestações artísticas e culturais de artistas drags são escudos de resistência e valorização da diversidade em tempos de governos autoritários.

No dia 16 de julho celebramos mundialmente o Dia Internacional da Arte Drag Queen. Conhecida em inglês como “Drag Da’y”, a data foi mobilizada por Adam Stewart no ano de 2009, via uma página no facebook de artistas drag queen, e teve como objetivo principal o de fornecer aos artistas drag um dia para expor sua criatividade e cultura LGBTI.  

A arte drag queen, transformista ou performista, é uma manifestação artística que surgiu no teatro, segundo estudos datados de 1870, e realizada por artistas que se transvestiam com figurinos e acessórios usadas pelo sexo oposto. No Brasil, as precursoras da arte drag surgiram nos anos 50 com as transformistas, principalmente nas grandes capitais do país. As artistas viam nos teatros, emissoras de rádio e televisão os canais de visibilidade das suas manifestações. Nesse processo, as conquistas e resistência sempre estiveram presentes, como as performances públicas das artistas durante a ditadura militar brasileira, período compreendido entre os anos 1964 a 1985.

Arte transformista também sempre esteve presente e foi cultivada dentro dos clubes sociais LGBTI que surgiram a partir dos anos 60. Como, por exemplo, a Turma OK, fundada em 1962 no Rio de Janeiro, que é o clube social LGBTI em funcionamento mais antigo do mundo.

Nesse processo histórico, a maior conquista das artistas drag é a consolidação da sua arte na cena cultural. Em diversos países as e os artistas drag tem se colocado como referência e protagonizado espaços importantes na cultura. Nos Estados Unidos, por exemplo, temos RuPaul, uma das mais antiga e conhecida drag queen do mundo, apresentadora do programa RuPaul's Drag Race um reality show estadunidense, produzido pela companhia World of Wonder. 

Por Abbey Aguirre, fotografado por Annie Leibovitz Voga

Por Abbey Aguirre, fotografado por Annie Leibovitz Voga

Mais próximo, no Chile, tivemos até o ano de 2015 o grandioso escritor, poeta e performista Pedro Lemebel.  Ele se autodenominava “rainha” (“una loca”) e “um pobre bicho velho” (“un marica pobre y viejo”). Lemebel configura-se como um incansável criador, um lutador pela justiça social e defensor da liberdade. Escreveu diversas obras e atuou nas ruas e teatros do chile. O multi-artista faleceu em 2015. 

Rainhas da esquina: Pedro Lemebel e Las Yeguas del Apocalipsis

Rainhas da esquina: Pedro Lemebel e Las Yeguas del Apocalipsis

Já no Brasil diversos nomes conquistaram e representaram a cultura LGBTI, fundamentais para a prática de resistência drag e com impactos diretos na garantia de espaços importantes para nova geração de artistas.

Ivaná, artista transformista franco-brasileira que estreou em 1953 a peça "É fogo na Jaca" e "Cherchez la femme" ao lado de Grande Otelo.

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Ivaná

Mesmo tão jovem, mas ocupando grande representatividade, a cantora drag queen Pabllo Vittar se tornou uma das maiores artistas LGBTI no mundo, conquistando milhares de seguidores e com um discurso afiado sobre a liberdade sexual, artística e de gênero

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Pabllo Vittar 

 Drag Queen não tem Gênero

A arte drag sempre foi vista como cultura gay, e tem sido uma árdua luta a ser superada pela comunidade LGBTI. Referir qualquer manifestação, mesmo diversa, e que diverge dos padrões heterossexual em uma sociedade patriarcal e machista sempre foi associada ao masculino, relacionando ao homem gay.

Mas muita coisa evoluiu tornando a arte drag queen um espaço no qual todas e todos possam se manifestar artisticamente, principalmente mulheres cis, e até mesmo heterossexuais.

Conheça a história da Drag Queen Amy Fame:

 Interpretada pela jornalista Rebeca Cavalcanti, 26 anos, mulher cis e bissexual, sua personagem nasceu na adolescência, a partir de uma luta pela auto aceitação e por vir de família extremamente conservadora.

Em 2013, em um momento bem turbulento com a família e a sociedade, teve diversos desafios gerados a partir das suas manifestações artísticas. O ponto de virada foi quando Amy topou o convite de uma amiga para ir                em uma casa de show LGBTI de Brasília.  Mesmo com todos os desafios, viu que era um espaço que poderia explorar artisticamente e estar livre para fazer o que gosta.

Nos últimos dois anos Rebeca se insere de cabeça na noite de Brasília, explorando a maquiagem, figurinos e ousadas performances em diversos espaços da capital federal.  Trazendo como principal bandeira o direito a                 ser livre, a artista mostra que a drag queen não tem gênero e que todo o tabu criado em torno da nossa cultura seja rompido.

 Foto: Amy Fame

Foto: Amy Fame

Mercado de Trabalho

Um dos grandes desafios para os artistas drag tem sido o reconhecimento profissional dentro do mercado de trabalho. Com visibilidade em ascensão, possibilitada pelas redes sociais e novas tecnologias, nunca antes vivemos uma era de tanta visibilidade. No entanto, é importante analisar e entender a dificuldade ainda presente das artistas em se manterem com seus personagens vivos.

Os principais espaços de atuação atual do mercado drag tem sido por meio das noites em boates LGBTI. Na maioria das vezes as casas de shows não trata as artistas como principais atrações e com cachês gratificantes.

Com muitas manifestações em torno da pauta, é importante refletir e enxergar o quanto é urgente valorizar e reconhecer artistas drag queen como profissionais, seja nos teatros, boates ou nas ruas. 

Em Brasília um grande movimento em torno da cultura drag queen e LGBTI tem tomado grande proporção. Um grupo de artistas criou um coletivo chamado “Distrito Drag”, para realizar diversas ações. O Coletivo tem se tornado um espaço de auto-organização e autoformação de drags queens, a fim produzir e difundir cultura LGBTI a partir da arte drag, na perspectiva de enxergar a cultura enquanto ação política, participando de maneira ativa da cena cultural do Distrito Federal e do Brasil.

O Coletivo tem desenvolvido atividades como oficina de iniciação drag, publicado um calendário drag e em todos os anos levam milhares de pessoas para as ruas da capital federal com um bloco de drag queens. 

O Brasil é o pais que mais mata LGBTI no mundo e atualmente vive uma intensa perseguição institucional aos direitos humanos, através do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e a adoção de uma política anti-direitos. A arte drag queen é a principal manifestação cultural da comunidade, um gigante e escudo para combater o ódio, transformando e formando mentes a partir da alegria, performance e coragem.

 

Viva a arte Drag Queen!

 

*Com a colaboração de Felipe Areda

 Instituto LGBT de Brasília

*Editado por Lizely Borges