Ilustração: Gutóviski

"O que deve haver no coração de uma pessoa que ousou ser o que é? Que mistério não revelado se esconde nas artérias de uma travesti?", pergunta-se o assassino.

"O que deve haver no coração de uma pessoa que ousou ser o que é? Que mistério não revelado se esconde nas artérias de uma travesti?", pergunta-se o assassino.

É possível que a muitos dentre as senhoras e os senhores cause espanto o crime ocorrido em Campinas nesta semana. Um homem assassinou uma travesti, arrebentou-lhe a caixa torácica e arrancou o coração. Em seguida pousou uma imagem de uma santa sobre o cadáver e foi-se embora levando consigo o órgão embrulhado em um pano. Guardou-o em casa. Mais tarde, já sob custódia da polícia, declarou sorrindo à imprensa: "Era um demônio".

A nós LGBTIs, entretanto, a brutalidade do crime, infelizmente, não surpreende. E esta é uma de nossas grandes tragédias: conhecemos o horror. Devasta-nos as almas cada notícia de assassinato em nossa comunidade, mas diariamente enfrentamos a crueldade com que se aniquila nossos corpos. A quase totalidade dos crimes contra nós envolvem torturas, mutilações, esquartejamentos, carbonização. No caso de travestis e transsexuais a barbárie é ainda mais intensa. Não raro, os restos mortais são encontrados em condições de difícil identificação. Os crimes nos chocam, mas a desumanidade de seus autores não.

Se considerarmos o fator simbólico no ato de arrancar o coração de uma pessoa e guardá-lo para si, temos possíveis pistas das motivações do crime. E me refiro às motivações reais para o crime, visto que acusar um eventual latrocínio é desviar o foco do ódio que habita o assassino. Eu me pergunto se o homem que vê em alguém um demônio já não terá ele próprio perdido seu coração antes. Se a sociedade que o convence pelo ódio e a intolerância a matar essa pessoa já não o terá arrancado violentamente de seu peito. Talvez explique sua cobiça pelo coração de uma mulher livre.

Nós LGBTIs nos sabemos cercadas de legiões de pessoas vagando pelo mundo com buracos vazios no peito. E digo "cercadas" porque não falo somente da mulher que, ao proibir uma criança de usar rosa ou azul, arranca-lhe o coração de dentro do corpinho ainda miúdo. Falo também de amigos meus que ao dizerem que essa mulher é "só uma cortina de fumaça a atrapalhar os debates sérios da vida nacional", arrancam também o meu próprio coração.

Uma das primeiras medidas do presidente eleito, antes mesmo de decretar a liberação do porte de arma, foi retirar a comunidade LGBTI da lista de grupos atendidos por políticas de direitos humanos. A partir daquele momento, para o Estado brasileiro, nós não somos seres humanos dignos de direitos. Conclui-se com isso, que talvez não sejamos sequer humanos diante da República. (Aproveito a deixa para propor à comunidade LGBTI uma resposta ao ato recusando-nos a pagar impostos coletados pelo Estado. Vamos ver com quantos dinheiros esse mundo reconhece uma cidadania!)

O Estado brasileiro arrancou milhões de corações com essa medida. A apatia da opinião pública diante do fato arrancou outros milhões. Mas não os nossos corações, que estes insistirão em bater! E sim os dos nossos assassinos, que agora estão por aí soltos na selva do mundo à nossa procura, oficialmente autorizados e estimulados para o nosso abate. Seguem a despedaçar nossos corpos pela ausência absoluta de afeto e compaixão que lhes habitem, pelo coração que lhes falte.

Aquela travesti, cujo nome social foi ocultado na imprensa sob uma identidade masculina que não lhe definia, ela sim, tinha um coração. Tanto que seu algoz o ambicionou. E embora assassinada muito precocemente, estou certa que aquele coração não bateu em vão sobre essa terra.

Sempre viva! Mulher de coração!

Salvador, 22/01/19